Poder Judiciário
JUSTIÇA FEDERAL
Seção Judiciária de Minas Gerais
Gab. Juiz Federal ALEXANDRE HENRY ALVES (MGUB-6B)

RECURSO CÍVEL Nº 1007974-75.2023.4.06.3811/MG

RELATOR: Juiz Federal ALEXANDRE HENRY ALVES

VOTO

Síntese da lide

Trata-se de recurso interposto pela parte autora contra sentença que julgou improcedente o pedido de concessão de benefício assistencial à pessoa com deficiência.

I. S. M. argumenta que o laudo médico pericial juntado aos autos, embora tecnicamente elaborado, apresenta conclusão que não reflete fielmente sua realidade fática e a gravidade de seu quadro clínico, pois o laudo diagnóstico do TEA (CID F84.0) é categórico ao afirmar sua incapacidade para atividades habituais, com incapacidade total e temporária de longo prazo. A recorrente destaca que a Lei nº 12.764/2012 equipara expressamente a pessoa com TEA à pessoa com deficiência para todos os efeitos legais. O recorrente também aponta que o Ministério Público Federal manifestou-se favoravelmente à concessão do benefício, entendendo preenchidos os requisitos legais, o que deveria ter sido acatado pela sentença. A decisão recorrida, ao negar o benefício, ignora a realidade concreta da família e a finalidade protetiva do BPC/LOAS, violando o princípio da dignidade da pessoa humana. O recorrente enfatiza que considerar o benefício do irmão, também deficiente, para elevar a renda familiar acima do patamar legal é juridicamente insustentável e perpetua um ciclo de exclusão. Além disso, a genitora do menor não exerce atividade remunerada devido à necessidade de dedicar-se integralmente aos cuidados de dois filhos com deficiência, o que, por si só, já caracteriza a vulnerabilidade socioeconômica da família, conforme reconhecido pelo assistente social no laudo.

Recebimento

Recebo o recurso inominado, tempestivamente interposto, tão somente em seu efeito devolutivo. 

Mérito

No caso dos autos, a controvérsia recursal cinge-se à verificação do preenchimento dos requisitos necessários à concessão do benefício assistencial à pessoa com deficiência previsto no art. 203, V, da Constituição Federal e regulamentado pelo art. 20 da Lei nº 8.742/1993.

a) Requisito da deficiência:

A perícia médica judicial (evento 19) concluiu que a parte autora, atualmente com 6 anos de idade, é portadora de Transtorno do Espectro Autista – TEA (CID F84.0), com início da doença desde o nascimento. O perito foi categórico ao afirmar que a condição incapacita o autor para o exercício das atividades inerentes à sua idade, tratando-se de impedimento de longo prazo, superior a dois anos, associado a limitações cognitivas e de interação social .

Dessa forma, resta plenamente caracterizado o impedimento de longo prazo exigido pelo art. 20, §2º, da Lei nº 8.742/1993, não havendo nos autos qualquer elemento capaz de infirmar as conclusões do expert.

Cumpre ainda registrar que a Lei nº 12.764/2012 equipara a pessoa com Transtorno do Espectro Autista à pessoa com deficiência para todos os efeitos legais, reforçando a caracterização do requisito biológico no caso concreto.

Assim, mostra-se incontroverso que a parte autora preenche o requisito da deficiência para fins de concessão do benefício assistencial.

b) Requisito socioeconômico:

No que concerne ao requisito da vulnerabilidade socioeconômica, foi realizado estudo social (evento 47), no qual se apurou que o núcleo familiar é composto por três pessoas: o autor, sua genitora e seu irmão.

Conforme consignado no laudo, a renda familiar decorre do benefício assistencial recebido pelo irmão do autor e de pensão alimentícia, sendo que a genitora encontra-se desempregada, dedicando-se aos cuidados dos filhos, ambos com necessidades especiais .

Nos termos do art. 20, §14, da Lei nº 8.742/1993, o benefício assistencial percebido por membro da família não deve ser considerado para fins de cálculo da renda familiar per capita. Assim, desconsiderado o BPC percebido pelo irmão, resta como renda familiar apenas o valor aproximado de R$ 782,00 proveniente da pensão alimentícia.

Distribuído esse valor entre os três integrantes do grupo familiar, verifica-se renda per capita inferior a 1/4 do salário mínimo, o que, em regra, conduz à presunção de situação de vulnerabilidade econômica.

De outro lado, embora a sentença tenha afastado a configuração da miserabilidade sob o fundamento de que a residência possuía alguns eletrodomésticos — como televisão, cooktop, micro-ondas e air fryer —, tal circunstância, por si só, não se revela suficiente para descaracterizar a situação de vulnerabilidade social da família.

Com efeito, a presença de bens domésticos de uso comum não constitui elemento apto a afastar a condição de hipossuficiência econômica, sobretudo quando o próprio laudo socioeconômico aponta que o grupo familiar vive em condições simples e que o caso sugere situação de vulnerabilidade .

Ademais, o estudo social também registra que a genitora não exerce atividade remunerada em razão da necessidade de acompanhar e prestar cuidados aos filhos, ambos com necessidades especiais, circunstância que reforça o quadro de fragilidade socioeconômica.

Importa destacar que o benefício assistencial possui natureza protetiva, voltada à garantia do mínimo existencial às pessoas com deficiência que não possuem meios de prover a própria subsistência ou de tê-la provida por sua família. Nesse contexto, a análise do critério econômico deve ser realizada à luz das condições concretas do núcleo familiar, e não a partir de presunções ou conjecturas acerca de eventual renda não declarada.

No caso em exame, o conjunto probatório evidencia que o grupo familiar vive com renda bastante limitada, dependente de benefício assistencial destinado a outro filho com deficiência e de pensão alimentícia de baixo valor, além de enfrentar despesas decorrentes do tratamento do autor.

Assim, considerados os elementos constantes dos autos, entendo demonstrada a situação de vulnerabilidade socioeconômica exigida para a concessão do benefício assistencial.

TABELA PARA CUMPRIMENTO PELA CEAB
Cumprimento Implantar Benefício
NB 7126461519
Espécie Benefício Assistencial Pessoa com Deficiência
DIB 30/01/2023
DIP Primeiro dia do mês da decisão que determinou a implantação/restabelecimento do benefício
DCB
RMI A apurar
Segurado Especial Não
Observações

Prequestionamento

Consideram-se prequestionados os dispositivos constitucionais e legais invocados pelas partes, notadamente os arts. 203, V, da Constituição Federal e 20 da Lei nº 8.742/1993, ainda que não mencionados expressamente, tendo em vista que a decisão foi proferida à luz de tais fundamentos.

Honorários

Sem honorários.

DISPOSITIVO

Sentença reformada. Recurso da parte autora provido para julgar procedente o pedido, condenando o INSS a conceder à parte autora o benefício assistencial à pessoa com deficiência (BPC/LOAS), a partir da data do requerimento administrativo.

As parcelas vencidas serão acrescidas dos encargos previstos no Manual de Cálculos da Justiça Federal.

Pelo exposto, voto por DAR provimento ao recurso.

 



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JUSTIÇA FEDERAL
Seção Judiciária de Minas Gerais
Gab. Juiz Federal ALEXANDRE HENRY ALVES (MGUB-6B)

RECURSO CÍVEL Nº 1007974-75.2023.4.06.3811/MG

RELATOR: Juiz Federal ALEXANDRE HENRY ALVES

DIREITO ASSISTENCIAL. RECURSO INOMINADO. BENEFÍCIO DE PRESTAÇÃO CONTINUADA (BPC/LOAS). PESSOA COM DEFICIÊNCIA. TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA (TEA). IMPEDIMENTO DE LONGO PRAZO ATESTADO PELA PERÍCIA MÉDICA. VULNERABILIDADE SOCIAL DEMONSTRADA. CÁLCULO DA RENDA FAMILIAR PER CAPITA. EXCLUSÃO DE BENEFÍCIO ASSISTENCIAL RECEBIDO POR OUTRO MEMBRO DA FAMÍLIA. APLICAÇÃO DO ART. 20, § 14, DA LEI Nº 8.742/1993. RENDA PER CAPITA INFERIOR AO LIMITE LEGAL. PRESENÇA DE ELETRODOMÉSTICOS QUE NÃO AFASTA, POR SI SÓ, A CONDIÇÃO DE MISERABILIDADE. REQUISITOS PREENCHIDOS. RECURSO DA PARTE AUTORA PROVIDO.

ACÓRDÃO

A 6ª Turma Recursal dos Juizados Especiais Federais de Minas Gerais decidiu, por unanimidade, DAR provimento ao recurso, nos termos do voto do(a) Relator(a).

Uberlândia, 09 de março de 2026.



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Extrato de Ata
Poder Judiciário
Justiça Federal da 6ª Região
Seção Judiciária de Minas Gerais

EXTRATO DE ATA DA SESSÃO VIRTUAL DE 02/03/2026 A 09/03/2026

RECURSO CÍVEL Nº 1007974-75.2023.4.06.3811/MG

RELATOR: Juiz Federal ALEXANDRE HENRY ALVES

PRESIDENTE: Juiz Federal ALEXANDRE HENRY ALVES

Certifico que este processo foi incluído na Pauta da Sessão Virtual, realizada no período de 02/03/2026, às 00:00, a 09/03/2026, às 23:59, na sequência 242, disponibilizada no DE de 19/02/2026.

Certifico que a 6ª Turma Recursal dos Juizados Especiais Federais de Minas Gerais, ao apreciar os autos do processo em epígrafe, proferiu a seguinte decisão:

A 6ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS FEDERAIS DE MINAS GERAIS DECIDIU, POR UNANIMIDADE, DAR PROVIMENTO AO RECURSO.

RELATOR DO ACÓRDÃO: Juiz Federal ALEXANDRE HENRY ALVES

Votante: Juiz Federal ALEXANDRE HENRY ALVES

Votante: Juiz Federal TALES KRAUSS QUEIROZ

Votante: Juiz Federal FLAVIO DA SILVA ANDRADE

MARCO AURELIO CERQUEIRA JUNQUEIRA

Secretário



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